10.5.10

sem título - 094

O restaurante já foi considerado um bordel em outra época,

denominado "IDEAL".
Nome e definição poupam maiores explicações.

Tempo passou, virou restaurante.
O estigma ficou, os freqüentadores, muitos também.
Em gênero, espécie e procura.

É a cozinha mais próxima do prédio, possui boa "maminha", aqui sem duplo sentido.
Também a pizza de atum com champignon.

Música ao vivo, "o melhor da MPB" segundo ele.
entenda-se predileção do cantor/público por Fábio Jr. e afins.

A cozinha mais próxima.
Adorável prazer da observação.

Ela parece uma chaminé, não deve ter menos de 45.
Faz pose para fumar, em sua "consciência" tenha a ilusão que a "pose" demonstre ter classe. Classe em um lugar tão desclassificado.

Traga fundo,
ri soltando fumaça aos socos,
em direção ao teto

Chaminé..

Aquele cabelo não deve mais ser tão negro como a tinta mostra.
Qual falsidade esconde por baixo da tinta, da pose?
Qual seria seu fetiche, ao jogar charme para o guardador de carros
do lado de fora do restaurante?

Onde mora?
Onde trabalha?

Qual a sensação ao pintar os olhos, cada vez mais velhos?
De olhar seus lábios cada vez mais sem vida.
Dia após dia esvaindo a feminilidade.

Ainda sozinha.
Quantas contas para pagar?
Qual e quando terá sido seu grande amor?

Por que nesta idade ainda sozinha?
A pose de mulher resolvida.
Não seria esta a falsidade?
A tinta para cobrir o fracasso como família que não formou?

Onde ficou o desejo pela maternidade?
Será ela mãe?
Avó?

Envelhecerei observando?
Dia após dia, observando mais e mais fios brancos em minha barba,
Olhos que apesar de carregar ainda a infância
já se demonstram tão cansados.

Mãos que não possuem a textura de antigamente.
A seriedade do adulto no espelho,
maturidade, responsabilidade, planos e crescimento.
Contraste com a paixão adolescente de sempre.

Casos e histórias para se contar,
tantas histórias.

Olhos cansados de ver em cada mulher do passado,
em cada uma, um erro diferente.

Cena no ônibus, onde um casal de velhos
bem velhos, no banco da frente
olhares perdidos
passando por uma cidade que se transformou
dia após dia,
frente a seus olhos.

Aliança grossa nos desdos
a mão dela segurando o braço dele,
descansado sobre a perna da esposa.
Com olhar perdido,
num reflexo condicionado de toda a vida
ela afaga o braço do companheiro.
Este responde com uma leve pressão da mão na perna da esposa.
Sem desviar o olhar perdido,
estão ligados,
sempre estiveram.
Não percebem o observador.

Observar o quotidiano
Alegrias e náuseas.

Futilidades,
inutilidades.

Maldito Vinícius que Banalizou o verbo amar
quando ensinou o
"eterno enquanto dure".

Maldito eterno enquanto dure.

O até que, apenas, a morte nos separe.

Não deixarei de acreditar,
anos que passaram
mulheres
frases e fases...

Posso tornar-me um observador idoso
mas jamais me renderei ao
eterno enquanto dure.

Sou ambicioso,
busco a mulher que vai acordar
todas as manhas na minha cama.
Mesmo que jamais use o mesmo travesseiro dela.
Ou a toalha.

Busco a presença, mesmo a respiração em silêncio,
os passos dentro de casa.
O horário de sempre.
As frases e atitudes habituais.

...e na velhice a mão sobre meu braço,
em um afago automático,
como sempre fez, a vida toda.

A pizza acabou,
de volta a realidade.

Aquela que parecia uma chaminé se foi
sem perceber,
perdido em meus pensamentos.


Uma gorgeta,
e ir para casa.

Quanto tempo faz
que seu olhar me perturbou?
Já nem sei.
Desde sempre, talvez.

Estava dormindo, quando você me acordou de madrugada.

Quando me acordou.

3 comentários:

Juliano Detoni disse...

Quanto tempo fazia que não saia um texto tão fluído?

Leveza amanhecida, finalizada com os primeiros cantos dos pássaros.

Jamais desacreditarei da leveza do verdadeiro amor.

Sâmia disse...

Texto singular com palavras perfeitas. Parece esta em busca de algo do passado que não te pertence, mas que quer que faça parte de te. Adorei!

Edineuda disse...

Desde a primeira leitura tentei me conter, mas é o Vinícius...então: "Para viver um grande amor, mister é ser um homem de uma só mulher; pois ser de muitas, poxa! é de colher... — não tem nenhum valor."
Ai ai poetinha...sempre soube das coisas do amor...